Livro – Elogio da Loucura

Não seria justo que o livro de hoje escape de alguma estante, em qualquer casa, em qualquer apartamento, em qualquer parte do planeta Terra.
Falo hoje do livro “Elogio da loucura”, escrito por Erasmo de Rotterdam (Roterdã, Roterdão, como quiserem) para seu amigo Thomas Morus, em 1509 e publicado em 1511, ou seja, período pleno da Reforma Protestante, podendo ser citado como um dos catalisadores deste movimento.
Esta é uma obra breve, escrita em uma de suas viagens da Itália para a Inglaterra, e como diz o autor, foi algo escrito apenas para sua própria distração, em um momento que não havia condições de escrever um obra séria.
Quem conta a história não é Erasmo, muito menos uma pessoa. Toda a história é narrada por uma “Deusa”, a Loucura, que pela visão do autor é a mais importante e a que domina todos os homens.
Nada substitui a loucura, ela é necessária a todos os seres, as atitudes são nada mais do que um reflexo da divindade “criada” nesse livro. Claro, não pense que as suposições propostas são infundadas. Tudo o que se passa é explicado, e muito bem detalhado.
Sua critica explícita mirada para todos os “tipos” sociais são, muitas vezes, fortes. A Igreja não escapa, indulgências, a vida regada de bens matérias do clero, entre outras coisas, não se fazem perdoar.
Um clássico, sem dúvidas. Pode-se fazer valer até hoje como código de conduta e denúncia do que acontece no mundo descrito por este livro narrado pela “Loucura”.
A dica está lançada!
Boa leitura a todos e até a próxima.
Resenha produzida para Denker.com.br e Cadesofia.com.br
Saramago – O triste Fim de uma História


Foto: Céu Guarda
Para alguns, O ateu, para outros, O escritor, para todos, um ícone!
Hoje é um dia triste para o blog e para muitos leitores/admiradores, do escritor José Saramago.
É difícil escrever sobre um ídolo sem que opiniões sejam expostas, portanto, deixo este post como algo totalmente sentimental.
Merecedor do prêmio Camões e do Nobel de literatura, Saramago vai deixar saudade.
Vejo teus livros na estante,
Lembro das palavras que me disseste,
Condeno a morte que te leva.A idade avança,
A cabeça evolui,
O espírito, esse não existe.Pesa por não escreveres mais para mim.
Sei que te odiaram,
Sei que pouco te ligaram,
mas saiba que eu te empalhei,
que eu, por ti chorei!
Dizem que heróis não morrem e, de fato, você será lembrado.
Imagem borrada

Escrevo…
Apago…
Escrevo…
Apago…
Tudo se faz complexo ao meio deste mar de ideias,
nada parece certo,
as palavras não se dizem expressivas o suficiente,
informações não são passadas como deveriam.
Escrevo…
Apago…
Escrevo…
Apago…
A caneta apenas suja o papel,
uma força faz com que ela destrua sua própria obra.
É o peso da responsabilidade!
Escrevo…
Apago…
Escrevo…
Apago…
Minha imagem é afetada ao escrever bobagens,
teorias inúteis,
mas que devem ser exatas!
Escrevo…
Apago…
Escrevo…
Apago…
Ensina-me a consertar os erros.
Não,
mostre-me como fazer com que aceitem meus erros.
Escrevo…
Apago…
Escrevo…
Apago…
As cabeças se distanciam,
o medo se aproxima,
o cuidado é destruidor.
Mas até o fim eu vou!
Dores do inverso

Aproxima-te agora do sangue frio
que fizestes escorrer de meu peito.
Líquido negro como a morte,
amargo como a solidão,
e viscoso como seu ódio.
Exale coragem,
diga que gostou,
mostre que goza da minha dor,
assim como cutucas profundamente a minha feriada.
Veja como seu sorriso reluz
a medida que o chumbo escaldante adentra em minhas veias por tua seringa,
quando ouve o estourar de meus pulmões
já cansados de suspirar por ti.
Pare por um simples segundo com tua maldade.
Respira…
Inspiro…
Pausa para meu corpo.
Olho que te afastas.
Respiro…
Inspira…
Voltas e começas tudo de novo.
Fique tranquila,
não sabes que me faz sofrer.
Só consegues sentir minha ausência,
só consegues sorrir ao meu peito.
Percebas que somos o inverso:
Ao atrair, minha dor,
ao retrair, seu furor,
mas ao pensar, nosso amor!
Livro – Laranja Mecânica

Acredito que muitas pessoas tenham assistido ao filme “Laranja Mecânica” (The Clockwork Orange), mas o que eu não sabia é que muitos dos que assistiram não sabiam da existência do livro correspondente a este filme tão marcante.
Esta dica é muito interessante se você gostou do filme e deseja analisar melhor, ter novas percepções de linguagem, conhecer melhor as personagens.
Para deixar registrado, passarei a pequena parte que descreve o livro:
Alex é o líder de uma gangue futurista. Junto com os amigos adolescentes Georgie, Pete e Tosko, pratica assaltos, espancamentos e estupros livremente pelas ruas de uma Londres decadente, cujos habitantes têm medo de sair à noite e preferem se distrair com programas de televisão.
(…)
Narrado pelo personagem principal, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo capitalista, porém totalitário.
O clássico de Anthony Burgess frequentemente nos choca ao explorar o verdadeiro significado da liberdade e o conflito entre o bem e o mal.
A estranha linguagem utilizada por Alex e sua gangue (soberbamente engendrada pelo autor) empresta uma dimensão quase lírica ao texto.
Fica ai o recado.
Até a próxima, pessoal!
O Primeiro Beijo

O Primeiro Beijo
Clarice Lispector
Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele…
Ele se tornara homem.
No Caminho, com Maiakóvski

No Caminho, com Maiakóvski
Eduardo Alves da Costa
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
Espero-te forte, Morte!

Sinto teu cheiro, teu calor, e tua presença.
Qual o motivo de tanto rodear-me, Morte?
Conte-o para mim…
Imagino-te na mais linda seda vermelha;
Sei que me olhas com ardor e desejo,
mas desejo de quê?
Sabes que nada de grande tenho a lhe oferecer.
Uma vida inválida de seu serviço.
É isso que tenho,
minha vida, Morte…
Não lhe impeço que venha,
só lhe peço que faça,
faça por merecer e terás meu sangue, minha alma, e meu corpo.
Não me pregue sustos,
nem deixes indícios de que veio.
Apenas pegue-me,
pegue-me e leve-me.
Desprezo suas brincadeiras,
seu sobro, seu doce veneno, e tudo mais o que me corroe,
me corroe e não me mata!
Se teu desejo é vir,
que venha!
Mas pegue-me de certo,
faça-me sofrer essa experiência única,
e leve-me daqui de uma só vez!
Quero ver tudo o que eu tinha ser apagado por se beijo profundo.
Tudo o que sonhava, escorrer pelas suas mãos macias.
mãos que sufocam o meu pescoço…
e a minha vida.
Acompanhar-te-ei no mais doce caminhar,
em um passo de bolero,
ou a última das valsas.
Só lhe faço um apelo, Morte:
não me venhas com empurrõezinhos da escada.
Traga-me o penhasco
para que eu possa pular a seu encontro.
Segure-me no abismo da vida,
mas não me segure apena,
Possua-me
Possua-me com seu corpo e me leve,
me transporte para o além
para que possa ser teu servo!
Gozo deste momento,
anseio por ele!
Venha, Venha, Venha!
Hei de te esperar sozinho,
Com as mãos atadas ao sagrado vinho,
e o coração aberto na ferida da tua chegada.








