Archive for the ‘ Textos ’ Category

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4
jul

As voltas do meu Eu

Imagem: http://www.meionorte.com

Tudo que se passa é um engano. Não me que tenha acontecido e nem recrimino por ter ocorrido.

A ardente sintonia e admirável confiança me confundem, me distorcem os pensamentos e me induzem ao erro.

Talvez não “erro”, talvez uma pequena incerteza.

Exalar o que não devia mas devia, faz-se necessário. Toda aquela água já não cabia dentro do meu corpo e , por pouco, não transborda a tempo de eu me afogar.

Por sorte, o remédio estava exatamente no que me fazia afundar.

Quem diria, coisas que sempre aconteceram e que nunca fizeram-se suceder de forma tão especial. A contradição entre o certo e o incerto, o bem e o mau, o forte e o fraco, o alegre e o triste.

Poderia eu estar infeliz como outros montes na mesma situação que me apresento? Evidente que sim, mas não, não desta vez!

Finalmente tudo volta ao seu lugar, e mais arrumado do que nunca. Agora sei que tenho você, e de um jeito ou de outro, será sempre a parcela mais especial do meu sorriso.

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1
jul

O que te movimenta?

Imagem: Empório Criativo

Vou ser sincero com vocês. Eu não sei o que movimenta esse mundo em que vivemos.

Tá…Para ser bem realista, eu também não posso dizer o que, de fato, me movimenta.

Já perceberam como as coisas mudam. Sempre mudam. De idade para idade, local para local, pessoa para pessoa. É um constância completamente inconstante.

O Papai Noel que te fazia esperar o simples presente de natal já pode não existir mais, pode não ser mais o mesmo, não ter mais o mesmo impacto.

As brincadeiras que te divertiam e que hoje não são mais praticadas pela vergonha e acolhimento mediante o envelhecimento.

O choro que não é mais pelo arranhão que apareceu em seu joelho enquanto brincava na gangorra, mas sim pelas feridas que você abriu em seu próprio eu ou que deixou que abrissem em você.

Não sei mais o que sigo. Meu sonho é distante, minha realidade é curta, o meio termo não é tão atraente.

A luta já foi convencida de que deve permanecer sentada no sofá em frente a televisão, só observando o que acontece.

Nossos jovens são condicionados ao dinheiro e ao sucesso financeiro.  Mas quer saber, eu lhe pergunto, e o sonho?

Sim, sei que é distante, mas sei também que não é isso que te faz desistir deles. O que te faz seguir um caminho divergente são as vozes que te dizem não. A educação que te condiciona a buscar a mesma coisa que todos os outros, que almejam robôs ao invés de seres que questionam.

Eu sei, eu acredito, eu sonho que tudo poderia ser diferente. Observo que muitos de vocês consideram-se fracassados por terem desistido do que realmente queriam, de um trabalho prazeroso, de um amor deixado para trás, de uma oportunidade jogada ao nada.

Eu não vou dar uma dica, mas um aviso. Um dia, tudo o que deixou passar será lembrado. Pode ser irrelevante, pode ser duvidoso, e pode ser irreversível. O livro que você não leu, a mão que você não segurou e a felicidade que você não encontrou.

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29
jun

Carta ao Amor

Meu Amor,

como é difícil guiar meus passos com a presença de tua ausência, com a distância do te afeto e o sonho de teus carinhos.

Às vezes me descontrolo no pensamento dos sonhos inverossímeis, nos quais te encontro e me afogo nos sentimentos mais profundos, ao oscular a face do mais forte sentimento que possa existir nas entranhas de um ser humano pacato e apaixonado como eu.

Ao contrário do que possa pensar, suas fotos não ocupam somente os porta retratos  reluzentes sobre a mesa do meu quarto. Sua imagem sempre está dentro dos meus olhos na perfeita sintonia entre o foco e a luz, na nítida imagem da paixão, ilustrando a mente.

Me lembro ainda de quando lhe dizia sobre os livros que eu insistia em dizimar todos os dias. Pois é, agora eu sequer consigo fazer uma breve anotação com um lápis já desapontado temendo o poder da borracha maligna. Todas aquelas clássicas frases me remetem a você, e em um piscar de olhos, já não encontro a linha e o parágrafo que me seduzia.

Se eu pudesse, te colocaria para fora das histórias que escrevo a tinta, mas como posso ser forte a esse ponto se nem mesmo meus mais ilustres heróis conseguiram conduzir suas obras para longe de seus amores?  Será que Dante passaria pelo inferno sem a esperança de encontrar Beatriz? Não creio…

Agora, queria que você não entendesse isso como simples palavras, mas como a forte promessa de que um dia nos encontraremos, o dia em que finalmente serei feliz ao teu lado e que nenhum outro conseguirá repetir que tudo não passa de um sonho.

Serei seu,

Ass: Seu amor.

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28
jun

Quase 65

Nascido na Bahia, o pai do rock brasileiro completaria hoje 65 anos.

Este foi Raul Seixas, o Maluco Beleza e “Guru” de muitos de seus fãs.

É praxe do blog colocar algo aqui nos dias de nascimento e morte do cantor, portanto, fica aqui a colaboração para este dia tão importante na minha vida.

Digo, isso não é uma festa, muito menos uma bela homenagem, mas um simples agradecimento por comparecer diariamente com seus versos, canções e filosofias.

Obrigado, Raul!

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28
jun

Ótima copa para todos

Imagem: http://www.midiaindependente.org/

Enquanto você torce, eu escrevo.

Não me recrimine por isso, é só outra opção.

Não diga que não sou patriota, pois apesar de não ser mesmo, você pode insinuar isso por diversos outros fatos.

Aproveite a copa, e boa torcida para todos vocês…

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18
jun

Saramago – O triste Fim de uma História

Foto: Céu Guarda

Para alguns, O ateu, para outros, O escritor, para todos, um ícone!

Hoje é um dia triste para o blog e para muitos leitores/admiradores, do escritor José Saramago.

É difícil escrever sobre um ídolo sem que opiniões sejam expostas, portanto, deixo este post como algo totalmente sentimental.

Merecedor do prêmio Camões e do Nobel de literatura, Saramago vai deixar saudade.

Vejo teus livros na estante,
Lembro das palavras que me disseste,
Condeno a morte que te leva.

A idade avança,
A cabeça evolui,
O espírito, esse não existe.

Pesa por não escreveres mais para mim.

Sei que te odiaram,
Sei que pouco te ligaram,
mas saiba que eu te empalhei,
que eu, por ti chorei!

Dizem que heróis não morrem e, de fato, você será lembrado.

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15
mar

Por que fui ao teatro – “desabafo”

Devo dizer que nunca fui um frequentador assíduo do teatro e que sempre achei que isso não  me fazia falta.

Como posso ter me enganado tão radicalmente assim?

Talvez eu tenha fechado meus olhos para uma das mais belas artes que o ser humano foi capaz de desenvolver.

Creio que este post seja algo apenas para desabafo e para contar minha experiência e descoberta, entretanto, é válida a leitura para quem tinha a mesma visão que eu sobre o assunto.

Bom, a princípio, sempre achei que o teatro era algo interessante e diferente, porém sempre achei as condições de horário, local, e preço muito desmotivadoras. Estava enganado!

Depois que entrei na faculdade de Letras e comecei a estudar teatro, desde a antiguidade até hoje, comecei a perceber que tinha algo mais do que apenas uma “mensagem” a ser passada. Compreendi que havia algo mais belo, algo mais sujo, algo mais presente do que apenas te contar uma história, e, motivado pela universidade que oferecia peças por preços absolutamente acessíveis, comecei a ir todos os fins de semana e cada vez mais sentia que aquilo me transformava como pessoa.

Me vi crescer em pouco tempo e se hoje eu posso dar um conselho, esse seria: Vá ao teatro, sempre, onde, e quando puder!

Você verá que ao começar a frequentar, mais peças surgirão, mais informações sobre trabalhos a preços populares encontrará, e mais diversão terá!

É isso que posso dizer sobre o teatro!

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13
mar

Versão original de “Chapeuzinho Vermelho”

Era uma vez…

Uma garotinha que tinha que levar pão e leite para sua avó. Enquanto caminhava alegremente pela floresta, um lobo apareceu e perguntou-lhe onde ia.

À casa da vovó – respondeu ela prontamente.

O Lobo muito esperto, chegou primeiro à casa, matou a vovó, colocou seu sangue numa garrafa, fatiou sua carne num prato, comeu e bebeu satisfatoriamente, guardou as sobras na despensa, colocou sua camisola e esperou na cama.
Toc. Toc. Toc. Soou a porta.

Entre, minha querida – disse o lobo.
Eu trouxe o pão e o leite para a senhora, vovó – respondeu Chapeuzinho Vermelho.
Entre minha querida. E coma algo, tem carne e vinho na despensa – disse o lobo.

A Menina comeu o que lhe foi oferecido, e enquanto comia o gato de sua vó a observava aos murmúrios:

“Meretriz! Então, comes a carne e bebes o sangue de tua avó com gosto. Ata teu destino ao dela.”

Então o Lobo disse:

Dispa-se e venha para cama comigo
O que faço com meu vestido? – questionou Chapeuzinho.
Jogue na lareira. Não precisará mais disso – respondeu o lobo.

E para cada peça de roupa que a garota retirava, copete, anágua, meias, a garota refazia a mesma pergunta, e o lobo respondia:

“Jogue na lareira. Não precisará mais disso”

Então a garota deitou-se ao lado do lobo, e ao sentir o toque do pelo roçar em seu corpo disse:

Como a senhora é peluda vovó – exclamou Chapeuzinho
É para te esquentar, minha neta – respondeu o lobo.
Que unhas grandes a senhora tem!
São para me coçar, minha querida
Que dentes grandes a senhora tem!
São para te comer

E então a devorou.
… Fim.

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7
mar

Versão original de “A Pequena Sereia”

Muitas pessoas conhecem os contos pela Disney e nem sempre sabem que eles foram escritos muito antes do que nós pensamos.

O primeiro conto que postarei aqui é um adaptado da versão original da “Pequena Sereia”, escrito por Hans Christian Andersen.

Segue o conto:

Muito longe da terra, onde o mar é muito
azul, vivia o povo do mar. O rei desse povo tinha seis filhas,
todas muito bonitas, e donas das vozes mais belas de todo o mar,
porém a mais moça se destacava, com sua pele fina e delicada como
uma pétala de rosa e os olhos azuis como o mar. Como as irmãs, não
tinha pés mas sim uma cauda de peixe. Ela era uma sereia.
Essa princesa era a mais interessada nas histórias sobre o
mundo de cima, e desejava poder ir à superfície; queria saber tudo
sobre os navios, as cidades, as pessoas e os animais.
— Quando você tiver 15 anos — dizia a avó —
subirá à superfície e poderá se sentar nos rochedos para ver o
luar, os navios, as cidades e as florestas.
Os anos se passaram… Quando a princesa completou 15 anos
mal pôde acreditar. Subiu até a superfície e viu o céu, o sol, as
nuvens… viu também um navio e ficou muito curiosa. Foi nadando
até se aproximar da grande embarcação. Viu, através dos vidros das
vigias, passageiros ricamente trajados. O mais belo de todos era
um príncipe que estava fazendo aniversário, ele não deveria ter
mais de 16 anos, e a pequena sereia se apaixonou por ele.
A sereiazinha ficou horas admirando seu príncipe, e só
despertou de seu devaneio quando o navio foi pego de surpresa por
uma tempestade e começou a tombar. A menina viu o príncipe cair no
mar e afundar, e se lembrou de que os homens não conseguem viver
dentro da água. Mergulhou na sua direção e o pegou já desmaiado,
levando-o para uma praia.
Ao amanhecer, o príncipe continuava desacordado. A sereia,
vendo que um grupo de moças se aproximava, escondeu-se atrás das
pedras, ocultando o rosto entre os flocos de espuma.
As moças viram o náufrago deitado na areia e foram buscar
ajuda. Quando finalmente acordou, o príncipe não sabia como havia
chegado àquela praia, e tampouco fazia idéia de quem o havia
salvado do naufrágio.
A princesa voltou para o castelo muito triste e calada, e não
respondia às perguntas de suas irmãs sobre sua primeira visita à
superfície.
A sereia voltou várias vezes à praia onde tinha deixado o
príncipe, mas ele nunca aparecia por lá, o que a deixava ainda
mais triste. Suas irmãs estavam muito preocupadas, e fizeram
tantas perguntas que ela acabou contando o que havia acontecido.
Uma das amigas de uma das princesas conhecia o príncipe e sabia
onde ele morava. A pequena sereia se encheu de alegria, e ia nadar
todos os dias na praia em que ficava seu palácio. Observava seu
amado de longe e cada vez mais gostava dos seres humanos,
desejando ardentemente viver entre eles.
A princesa, muito curiosa para conhecer melhor os humanos,
perguntou a sua avó se eles também morriam.
— Sim, morrem como nós, e vivem menos. Nós podemos
viver trezentos anos, e quando “desaparecemos” somos
transformadas em espuma. Nossa alma não é imortal. Já os humanos
têm uma alma que vive eternamente.
— Eu daria tudo para ter a alma imortal como os
humanos! — suspirou a sereia.
— Se um homem vier a te amar profundamente, se ele
concentrar em ti todos os seus pensamentos e todo o seu amor, e se
deixar que um sacerdote ponha a sua mão direita na tua,
prometendo-te ser fiel nesta vida e na eternidade, então a sua
alma se transferirá para o teu corpo. Ele te dará uma alma, sem
perder a dele… Mas isso jamais acontecerá! Tua cauda de peixe,
que para nós é um símbolo de beleza, é considerada uma deformidade
na terra.
A sereiazinha suspirou, olhando tristemente para a sua cauda
de peixe e desejando ter um par de pernas em seu lugar.

Mas a
menina não esquecia a idéia de ter uma alma imortal e resolveu procurar a bruxa do mar, famosa por tornar sonhos de jovens
sereias em realidade… desde que elas pagassem um preço por isso.
O lugar onde a bruxa do mar morava era horrível, e a princesa precisou de muita coragem para chegar lá. A bruxa já a esperava, e foi logo dizendo:
— Já sei o que você quer. É uma loucura querer ter
pernas, isso trará muita infelicidade a você! Mesmo assim vou
preparar uma poção, mas essa transformação será dolorosa. Cada
passo que você der será como se estivesse pisando em facas
afiadas, e a dor a fará pensar que seus pés foram dilacerados.
Você está disposta a suportar tamanho sofrimento?
— Sim, estou pronta! — disse a sereia, pensando
no príncipe e na sua alma imortal.
— Pense bem, menina. Depois de tomar a poção você nunca
mais poderá voltar à forma de sereia… E se o seu príncipe se
casar com outra você não terá uma alma imortal e morrerá no dia
seguinte ao casamento dele.
A sereiazinha assentiu com a cabeça e, sem dizer uma palavra,
ficou observando a bruxa fazer a poção.
— Pronto, aqui está ela… Mas antes de entregá-la a
você, aviso que meu preço por este trabalho é alto: quero a sua
linda voz como pagamento. Você nunca mais poderá falar ou
cantar…
A princesa quase desistiu, mas pensou no seu príncipe e pegou
a poção que a bruxa lhe estendia. Não quis voltar para o palácio,
pois não poderia falar com suas irmãs, sua avó e seu pai. Olhou de
longe o palácio onde nasceu e cresceu, soltou um beijo na sua
direção e nadou para a praia.
Assim que bebeu a poção, sentiu como se uma espada lhe
atravessasse o corpo e desmaiou. Acordou com o príncipe
observando-a. Ele a tomou docemente pela mão e a conduziu ao seu
palácio. Como a bruxa havia dito, a cada passo que a menina dava
sentia como se estivesse pisando sobre lâminas afiadíssimas, mas
suportava tudo com alegria pois finalmente estava ao lado de seu
amado príncipe.
A beleza da moça encantou o príncipe, e ela passou a
acompanhá-lo em todos os lugares. À noite, dançava para ele, e
seus olhos se enchiam de lágrimas, tamanha dor sentia nos pés.
Quem a visse dançando ficava hipnotizado com sua graça e leveza, e
acreditava que suas lágrimas eram de emoção.
O príncipe, no entanto, não pensava em se casar com ela, pois
ainda tinha esperança de encontrar a linda moça que ele vira na
praia, após o naufrágio, e por quem se apaixonara. Ele não se
lembrava muito bem da moça, e nem imaginava que aquela menina muda
era essa pessoa…
Todas as noites a princesinha ia refrescar os pés na água do
mar. Nessas horas, suas irmãs se aproximavam da praia para matar a
saudade da caçulinha. Sua avó e seu pai, o rei dos mares, também
apareciam para vê-la, mesmo que de longe.
A família do príncipe queria que ele se casasse com a filha
do rei vizinho, e organizou uma viagem para apresentá-los. O
príncipe, a sereiazinha e um numeroso séquito seguiram em viagem
para o reino vizinho.
Quando o príncipe viu a princesa, não se conteve e gritou:
— Foi você que me salvou! Foi você que eu vi na praia!
Finalmente encontrei você, minha amada!
A princesa era realmente uma das moças que estava naquela
praia, mas não havia salvado o rapaz. Para tristeza da sereia, a
princesa também se apaixonara pelo príncipe e os dois marcaram o
casamento para o dia seguinte. Seria o fim da sereiazinha. Todo o
seu sacrifício havia sido em vão.
Depois do casamento, os noivos e a comitiva voltaram para o
palácio do príncipe de navio, e a sereia ficou observando o
amanhecer, esperando o primeiro raio de sol que deveria matá-la.
Viu então suas irmãs, pálidas e sem a longa cabeleira, nadando ao
lado do navio. Em suas mãos brilhava um objeto.
— Nós entregamos nossos cabelos para a bruxa do mar em
troca desta faca. Você deve enterrá-la no coração do príncipe. Só
assim poderá voltar a ser uma sereia novamente e escapará da
morte. Corra, você deve matá-lo antes do nascer do sol.
A sereia pegou a faca e foi até o quarto do príncipe, mas ao
vê-lo não teve coragem de matá-lo. Caminhou lentamente até a
murada do navio, mergulhou no mar azul e, ao confundir-se com as
ondas, sentiu que seu corpo ia se diluindo em espuma.

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7
dez

Para Maria da Graça

textosPara Maria da Graça

(Paulo Mendes Campos)

07-12-2009 - Para Maria da GraçaAgora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: “Alice no País das Maravilhas”.

Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.

Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.

A realidade, Maria, é louca.

Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: “Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?”.

Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. “Quem sou eu no mundo?”. Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.

A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: “Estou tão cansada de estar aqui sozinha!”. O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada, e vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.

Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes conseqüências. Quando Alice comeu o bolo, e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.

Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.

A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: “Oh, I beg your pardon!”. Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para a tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto-de-vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: “Gostarias de gatos se fosses eu?”.

Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: “A corrida terminou! Mas quem ganhou?”. É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre aonde quiseres, ganhaste.

Disse o ratinho: “Minha história é longa e triste!”. Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: “Minha vida daria um romance”. Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance é só o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energicamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: “Minha vida daria um romance!”. Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.

Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: “Devo estar diminuindo de novo”. Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.

E escuta esta parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. Ê isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e de rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e o grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor.

Toda pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para as grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.

Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas…”.

Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.

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