‘Abbey Road’ chega aos 40 em ótima forma

É o último registro dos Beatles em estúdio, o mais vendido e, para muitos, o melhor álbum já gravado pela banda em seus oito anos de carreira. Apenas por isso, as justificativas para celebrar os 40 anos de lançamento de “Abbey Road” neste sábado (26), já seriam excelentes. Mas, observando de perto, os motivos se multiplicam.
“Come together”, “Something”, “Because”, “Here comes the sun”… Alguns dos mais lembrados sucessos dos Beatles fazem parte do repertório do disco, o primeiro lançado exclusivamente em estéreo — todos os outros álbuns da banda têm versões também em mono. É também em “Abbey Road” que estão registradas algumas das mais complexas harmonizações vocais criadas pelo grupo que, pela primeira vez, pôde contar com uma mesa de oito canais. Novidade tecnológica na época, o equipamento permitiu uma qualidade técnica nunca antes alcançada pelos Fab Four nas gravações. A capa do álbum iria eternizar ainda a rua londrina e o estúdio homônimos, onde foi gravada a maior parte da produção do grupo.
Derivadas do desastroso projeto “Get back” — que serviu para acirrar ainda mais os ânimos ente John, Paul, George e Ringo —, as sessões de gravação de “Abbey Road”, iniciadas em fevereiro de 1969, levariam quase seis meses para serem concluídas. A estratégia era colocar as diferenças musicais e pessoais dos músicos brevemente de lado para que o projeto, desta vez, pudesse ser concluído.
“Havia um sentimento não explicitado de ‘vamos fazer o melhor que pudermos’. Todos nós sabíamos que aquilo era o fim’”, revela o produtor George Martin, em depoimento registrado na biografia “John Lennon – A vida”, de Philip Norman.
Processo e cama
Apesar da crescente animosidade entre os membros da banda e de todo o baixo astral que uma suposta despedida sugeria, os Beatles, em estúdio, ainda eram capazes de produzir excelente música. Todos, enquanto compositores, deram suas contribuições individuais e efetivas para o disco. Até mesmo Ringo Starr emplacou “Octopus’s garden”, a segunda canção composta pelo baterista a fazer parte de um álbum dos Beatles.
A saia justa ficou por conta de Lennon. A faixa de abertura, “Come together”, era uma música sua, com arranjos de Paul. Ela serviria como canção-tema para Timothy Leary — o “guru do LSD”, como ficou conhecido nos anos 60 — durante sua corrida ao governo da Califórnia. Os planos de Leary como político fracassaram ainda durante a campanha, mas a música não foi descartada.
“Quando ele a trouxe pela primeira vez, era uma musiquinha bem animada, e eu lhe disse que se parecia bastante com ‘You can’t catch me’, de Chuck Berry. John reconheceu que parecia mesmo, e eu disse: ‘Bom, faça alguma coisa para mudar isso’. Sugeri que tentássemos desacelerar o ritmo, e foi o que fizemos”, explica Paul McCartney na biografia “Many years from now”, de Barry Miles. Não deu certo. A violação aos direitos autorais de Berry não passou despercebida e a música foi objeto de um processo judicial movido por Maurice Levy, proprietário da faixa. Pare evitar os problemas com a Justiça, John lançou um álbum de rock ‘n’ roll onde regravou “Sweet little sixteen” e “You can’t catch me”, publicadas pela empresa de Levy.
John já havia se metido em apuros no início de julho daquele ano, desta vez de outra natureza. Durante um passeio de carro com a família pelo interior da Escócia, Lennon perdeu o controle da direção do veículo, que derrapou para uma vala ao lado da estrada. Ele, Yoko e Kyoko sofreram cortes no rosto e Yoko feriu as costas. A pancada ainda provocava muitas dores quando o casal juntou-se aos outros Beatles, em Abbey Road. Por conta disso, John encomendou uma cama, que foi instalada no chão do estúdio, de onde Yoko poderia acompanhar, de maneira mais confortável, o trabalho do marido.
“‘Something’, de Lennon e McCartney”
Mas não só os acidentes de percurso compõem as peculiaridades de “Abbey Road”. Os acertos são ainda mais evidentes, como “Something” e “Here comes the sun”, de George Harrison. A primeira ainda tem o mérito de ser a única música dos Beatles cantada ao vivo por Frank Sinatra, ainda que a tenha apresentado como “uma composição de Lennon e McCartney”. Foi a única faixa de George que deu título a um compacto da banda e a única a ser lançada como single depois que o álbum já estava na rua.
Apesar de tantas honras, Harrison faria ainda uma correção histórica sobre a canção. “Essa música não foi composta para Patti [Boyd, sua esposa na época da composição]. É apenas uma canção de amor, sem nenhum tipo de conotação pessoal. Na verdade, ‘Isn’t it a pitty’ é que fala verdadeiramente sobre ela”, diria o músico, durante uma entrevista à TV japonesa, em 1991. “Isn’t it a pitty” acabaria sendo gravada em seu primeiro trabalho solo, o triplo “All thigs must pass”, de 1970.
A faixa seguinte, “Maxwell’s silver hammer”, de Paul, une a tecnologia dos sintetizadores com a crueza do som de Ringo martelando uma bigorna. Sobre a letra, Paul comentaria, mais tarde, na biografia de Barry Miles. “Era minha analogia para quando alguma coisa aparece de repente e dá muito errado, como muitas vezes acontecia e como eu estava começando a descobrir naquela altura da vida. Queria algo de simbolizasse isso”, explicou Paul.
Para gravar o blues “Oh! Darling”, McCartney passou dias trabalhando a voz, para que ficasse o mais áspera possível. “Octopus’s garden”, canção meio country, meio infantil de Ringo, remete a “Yellow submarine” (uma outra música cantada por ele), principalmente pelos efeitos sonoros, como bolhas e ondas do mar. Em “I want you (She’s so heavy)”, John Lennon decidiu por juntar duas músicas em uma, o que resultou na segunda gravação mais longa dos Beatles, com 7 minutos e 49 segundos, atrás apenas da bizarra “Revolution 9″, de “The Beatles”, mais conhecido como o “Álbum branco”. Seria o fim do lado A, nos discos de vinil.
Lado A e lado B
O conceito do disco partiria de premissas diferentes. Paul queria algo mais “sinfônico”, uma espécie de ópera, com pequenas músicas emendadas em uma sequência. “Mas eu gosto de rock, não sei fazer peças longas, apenas canções de dois minutos”, diria John Lennon ao produtor George Martin. Este, para não desagradar as duas forças criadoras da banda, criou conceitos diferentes para dois momentos do disco. O primeiro lado seria o das canções, dos trabalhos mais longos. O segundo, das pequenas costuras. Essas duas características acabariam marcando “Abbey Road” como um disco único na carreira dos Beatles.
Com exceção de “Here comes the sun”, a outra pérola de Harrison, composta durante uma agradável tarde de sol nos jardins da casa de Eric Clapton; Because”, de Lennon, com vozes dobradas e criada a partir de “Sonata ao luar”, de Beethoven, tocada por Yoko Ono, ao piano, com os acordes na sequência contrária; e “You never give me your money”, um manifesto de Paul contra o ex-empresário da banda Allen Klein, a quem Paul atribui “só promessas, papéis gozados e nada de grana”, o restante do disco é um medley alucinante, com uma colagem de trechos de canções inacabadas compostas originalmente para o “Álbum branco”.
“Assim que começamos, John entrou no espírito da coisa. Toda hora aparecia, dizendo: ‘Tenho outro pedacinho aqui. Acha que pode encontrar um espaço para ele?’”, recorda George Martin, na biografia de Philip Norman.
A sequência vai de “Sun king” até “The end” e configura um dos momentos mais brilhantes da discografia dos cabeludos de Liverpool. Nesta última, um gostinho do que poderia ter se tornado a banda se “Abbey Road” não fosse o derradeiro trabalho: o único solo de bateria de Ringo em toda a discografia beatle, duelo de guitarras entre John, Paul e George. Características que ganhariam o rock nos anos 70 e que já vinham sendo exploradas por outros conjuntos, como o Cream (de Eric Clapton) e The Jimi Hendrix Experience, outro lendário guitarrista.
Com “Her majesty”, uma balada solo de Paul ao violão, completa-se os últimos 46 minutos e 54 segundos da banda capturados em estúdio, um lugar também imortalizado na capa do disco, através da foto de Iain MacMillan. Tirada no dia 8 de agosto de 1969, a fotografia foi rascunhada por Paul e escolhida entre apenas outras seis. Mostra os quatro integrantes em fila indiana, atravessando uma faixa de pedestres poucos metros ao sul do portão principal do estúdio. Para a eternidade.
FONTE: G1







