O Relógio de Corda

Ah, que falta me faz aqueles outros ventos, aquelas outras horas, águas que correram e sonhos que criamos.
Não se pode mais contar os fios de barba em minha face como fazia diante de qualquer coisa que refletia.
As ansiedades que ansiavam que tudo passasse rápido se transformou no medo da verdadeira, ágil e constante velocidade que o tempo passa.
A chama do amor? … Essa já virou o gelo da saudade.
Os motivos para viver parecem escassos. Não me lembro sequer da última vez que pensei em fazer algo novo e desafiador.
A função que nós, velhos, herdamos parece ser a de esperar um fim. Um fim que tentamos evitar prejudicando-nos, atrasando o tempo dentro de nossas velhas cabeças.
Dizemos sempre para os jovens aproveitarem seus bons tempos, mas qual o motivo de tanta sabedoria adquirida com tantas voltas do relógio não conseguir enxergar a claridade da velhice?
Vou dizer da forma mais forte que minhas antigas pregas vocais podem emitir o som para que todos me escutem: Morrerei rápido, entretanto, viverei muito! Só assim serei feliz do começo ao fim.
Serei feliz enquanto sofrer, enquanto chorar, enquanto apanhar e até enquanto sorrir. O importante é que estarei vivo!
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